Donata Meirelles ressalta de que formas é possível se adaptar ao slow fashion

Há cerca de três anos, uma espécie de tendência se espalhava pelas principais grifes de moda, assim como pelas marcas de menor porte. Tratava-se de uma maneira veloz de se vender o que se produzia, de forma que a moda parecia evanescer de forma igualmente rápida. A empresária Donata Meirelles, que atua nesse segmento, explica que esse panorama começa a se modificar mais acentuadamente em 2019, embora o ano anterior já tenha dado indícios de que mudanças significativas estavam por vir no ramo fashion.

A corrente considerada inversa ao consumo desenfreado de itens da moda chama-se “Slow Fashion”, explica a empreendedora. A expressão de origem inglesa pode ser entendida como uma moda que dura mais, não perdendo sua essência, assim como ocorria em um passado ainda recente. Além da questão econômica implícita nessa vertente, o que se busca alcançar é a prática de atitudes sustentáveis, uma vez que consumir desordenadamente pode ser visto como algo que gera maior desperdício.

Segundo uma pesquisa de 2018 realizada pela Environmental Health, uma revista especializada em questões ambientais, quase 85% das roupas utilizadas por cidadãos americanos acabam em aterros sanitários, quando do seu descarte. O estudo especificou que estas peças se tornam resíduos sólidos. Embora a produção têxtil seja largamente beneficiada com o alto nível de consumo, o levantamento apontou que é preciso que haja maior engajamento a fim de que se diminua o índice de poluentes desse segmento, que se mostrou ainda maior do que o verificado no ramo petroleiro.

Como medida aos efeitos da chamada “fast fashion”, a slow fashion passou a ser adotada entre os principais polos produtores de moda, salienta Donata Meirelles. A primeira forma de se consumir apresentava algumas características positivas, mas mostrava-se, por vezes, dispensável ao propósito de se preservar o planeta. A mais recente opção, entretanto, é caracterizada pela produção de itens de moda confeccionados para que tenham qualidade superior aos demais. A questão da durabilidade também é algo que se pode verificar nesse tipo de produção, mas vale ressaltar que tais peçam costumam ser comercializadas a preços ligeiramente maiores aos dos demais produtos fashion.

Chiara Gadaleta, uma especialista em consumo sustentável decidiu organizar uma premiação que destacasse as ações ecologicamente corretas em diversos segmentos, como o fashion, por exemplo. Uma das marcas premiadas em 2018 foi a brasileira “Coletivo de Dois”. Segundo um dos sócios da grife, Daniel Barranco, o funcionamento de sua empresa ocorre a partir de matérias-primas que não são empregadas mais pelo setor fabril de algumas marcas. Estes materiais, conforme argumentou o empresário premiado, apresentavam pequenos defeitos, mas estes não impediam que fossem reaproveitados.

Conforme um outro estudo, desta vez realizado pelo portal ThredUp, houve crescimento no nível de consumo de itens reaproveitados. O aumento foi de 25%, em comparação com as compras efetuadas no ano anterior. Conforme analistas do site, estima-se que esta modalidade de consumo venha a impulsionar a moda sustentável. Além do cuidado voltado à natureza, Donata Meirelles destaca que este tipo de consumo também se mostra rentável aos próprios consumidores. Ainda que o preço de compra seja maior, o item adquirido tem maior durabilidade, fazendo com que o investimento valha a pena, pontua a empresária.

Uma outra marca que tem procurado atuar dentro de diretrizes sustentáveis é a paulista Boutique. Conforme a proprietária esclarece, um dos principais objetivos da empresa é promover o consumo equilibrado, algo que ela acredita ser possível por meio da maior durabilidade que se dá às peças. A ideia de fundar uma loja de roupas usadas começou ainda quando a empresária Rebeca Oksana decidiu comercializar itens que não utilizava mais através da internet. O pequeno negócio, conforme ela mesma explicou, foi tomando maiores proporções, de forma que tornou-se um e-commerce e em seguida uma loja física. Para abastecer seu estoque a jovem empresária faz visitas a outros diversos brechós da cidade.

Além das empresas que produzem e comercializam roupas, uma outra área tem se mostrado atuante em práticas de slow fashion. Trata-se do ramo de calçados, informa Donata Meirelles. Uma das marcas que se destacam nesse tipo de ação é a Insecta Shoes, que recicla cerca de 21 mil garrafas pet, bem como aproximadamente uma tonelada de algodão, papel e borracha. A fundadora, Bárbara Mattivy, possui discurso típico da maior parte dos empreendedores desse tipo de nicho, uma vez que alega a intenção de reaproveitar materiais indesejados pela indústria convencional. Dessa maneira, ela explica que os calçados que produz são feitos a partir do emprego de vários tipos de matérias-primas que iriam para descarte.

Uma das maneiras de se adaptar ao slow fashion é, conforme Maria Constantino, engenheira ambiental, o emprego da criatividade na hora de compor os looks. Para ela, não há necessidade de se manter um consumo desenfreado, de modo que não é preciso abrir mão de se estar na moda, vestindo aquilo que realmente se deseja e faça bem ao planeta.